quarta-feira, 26 de outubro de 2011

O SARCÓFAGO - MINHA MÚMIA

outra noite
que tranco minha morte diária no armário
pra renascer num jardim de ervas daninhas
onde pequenos pedaços frágeis de mim
fogem com a doce brisa do amanhecer
como leves guarda-chuvas de dentes-de-leão
capturados em pura crueldade
na seda úmida das teias de aranhas fiandeiras

outra tarde
que ela retorna laranjada como o sol
pousa delicada em meu ombro esquerdo
feito escaravelho prateado que sorri
refletindo e refratando os raios em cores
enterrando fundo outro dia agonizante
sob escamas de asas de mariposas pardas
eletrocutadas nos faróis do trânsito congestionado

o belo e o maldito rondam meu ser
e se abrigam em meu peito doído
atormentando meu pensamento e alma
e ela toca meu rosto em febre e pústulas
e mesmo com meu adeus eu sei que retornará.

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